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A varicocele é a dilatação anormal das veias que drenam o testículo e é considerada a causa cirurgicamente corrigível mais comum de infertilidade masculina. Nem toda varicocele precisa ser operada — a decisão depende do espermograma, do exame físico e do contexto reprodutivo do casal.

O que é varicocele

O testículo é drenado por um conjunto de veias chamado plexo pampiniforme, que sobe pelo cordão espermático e desemboca, do lado esquerdo, na veia renal e, do lado direito, diretamente na veia cava. Quando as válvulas dessas veias falham, o sangue reflui e elas se dilatam — é a varicocele.

Cerca de 15% dos homens adultos têm varicocele, e essa frequência sobe para 35% entre homens com infertilidade primária e até 80% nos casos de infertilidade secundária. A maioria das varicoceles é do lado esquerdo (por razões anatômicas do retorno venoso), mas casos bilaterais são frequentes quando avaliados em detalhe.

Por que a varicocele afeta a fertilidade

O dano à produção de espermatozoides não acontece por um único mecanismo. A literatura aponta três efeitos principais:

  • Hipertermia testicular: o sangue venoso represado eleva a temperatura local. O testículo precisa funcionar 2 a 4 °C abaixo da temperatura corporal — qualquer aumento prejudica a espermatogênese.
  • Estresse oxidativo: a estase venosa gera radicais livres que danificam a membrana e o DNA dos espermatozoides, aumentando a fragmentação do DNA espermático (SDF).
  • Hipóxia e refluxo de metabólitos: a oxigenação testicular cai e há retorno de substâncias da circulação renal e adrenal que podem ser tóxicas ao epitélio germinativo.

Esses três fatores juntos explicam por que a varicocele pode comprometer não só a quantidade de espermatozoides (oligozoospermia), mas também a motilidade (astenozoospermia), a morfologia (teratozoospermia) e a integridade do DNA espermático.

Sintomas e diagnóstico

A maior parte das varicoceles é assintomática e descoberta na investigação de infertilidade ou em exame físico de rotina. Quando há sintomas, os mais comuns são:

  • Sensação de peso ou desconforto no escroto, que piora ao longo do dia ou após esforço físico
  • Alteração visível ou palpável no escroto, descrita classicamente como uma "bolsa de minhocas"
  • Atrofia testicular do lado afetado (mais raro, mas relevante em adolescentes)

O diagnóstico é clínico, feito pelo exame físico com o paciente em pé e durante a manobra de Valsalva. A varicocele palpável é classificada em três graus:

  • Grau I: palpável apenas durante a manobra de Valsalva
  • Grau II: palpável em repouso, sem necessidade de Valsalva
  • Grau III: visível através da pele do escroto, sem necessidade de palpação

A ultrassonografia escrotal com Doppler é usada para confirmar o diagnóstico em casos duvidosos e avaliar volume testicular. As diretrizes internacionais, no entanto, são claras: varicocele subclínica — aquela detectada apenas pelo ultrassom, sem ser palpável — não tem indicação de tratamento.

Quando a cirurgia é indicada

A indicação cirúrgica para varicocele segue critérios bem estabelecidos pelas diretrizes da Associação Americana de Urologia (AUA/ASRM, 2024) e da Associação Europeia de Urologia (EAU, 2024). Os quatro critérios precisam estar presentes simultaneamente:

  • Varicocele clínica (palpável ao exame físico, graus I, II ou III)
  • Infertilidade do casal (sem gestação após 12 meses de tentativas)
  • Espermograma alterado em pelo menos um parâmetro
  • Parceira com reserva ovariana preservada e sem fator feminino impeditivo

Outras situações em que a cirurgia pode ser considerada:

  • Dor escrotal crônica claramente atribuída à varicocele, após exclusão de outras causas e falha do tratamento conservador
  • Atrofia testicular progressiva em adolescentes, com diferença de volume superior a 20% entre os testículos
  • Alta fragmentação do DNA espermático com falhas em ciclos prévios de reprodução assistida — indicação emergente, com evidência ainda em consolidação
  • Hipogonadismo associado à varicocele — a literatura mostra que a cirurgia pode melhorar os níveis de testosterona em homens selecionados

A varicocelectomia não é indicada em homens com azoospermia obstrutiva, varicocele subclínica isolada ou quando o casal já optou por reprodução assistida sem dependência do espermograma natural.

Técnicas cirúrgicas

O objetivo da cirurgia é ligar as veias do plexo pampiniforme dilatadas, preservando a artéria testicular, os vasos linfáticos e o ducto deferente. Existem três abordagens principais:

Varicocelectomia microcirúrgica subinguinal

É a técnica considerada padrão-ouro pelas diretrizes internacionais. É realizada por uma pequena incisão de cerca de 2 cm logo abaixo da virilha, com auxílio de microscópio cirúrgico ou lupa de alta magnificação. Permite identificar e ligar individualmente todas as veias dilatadas, preservando com segurança a artéria e os linfáticos. Tem as menores taxas de recidiva (1–2%) e de hidrocele pós-operatória (cerca de 1%).

Varicocelectomia laparoscópica

Feita por três pequenos portais no abdome, ligando as veias gonadais bem acima do testículo (abordagem retroperitoneal alta). Tem boa eficácia, mas as taxas de hidrocele pós-operatória são um pouco maiores (3–10%), por menor preservação dos linfáticos.

Embolização percutânea

Procedimento minimamente invasivo feito pelo radiologista intervencionista. Por punção da veia femoral, um cateter é guiado até a veia gonadal e as veias dilatadas são ocluídas com molas ou esclerosantes. Não exige incisão e a recuperação é mais rápida, mas a taxa de falha técnica (impossibilidade de cateterização) é maior e o custo costuma ser elevado.

Recuperação e resultados

A varicocelectomia microcirúrgica é feita em regime ambulatorial ou com internação de poucas horas, sob anestesia regional ou geral. O paciente costuma retomar as atividades leves em 2 a 5 dias e exercícios físicos após 3 a 4 semanas.

Os resultados em parâmetros seminais são consistentes na literatura. Meta-análises recentes mostram que, após varicocelectomia em homens com varicocele clínica e espermograma alterado, há melhora significativa na concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides em 60 a 70% dos casos, e redução da fragmentação do DNA espermático.

O tempo até a melhora do espermograma é em média de 3 a 6 meses, com estabilização por volta de 9 a 12 meses pós-operatórios. A taxa de gravidez espontânea em casais previamente inférteis varia entre 30% e 45% no primeiro ano após a cirurgia, dependendo da idade da parceira e da gravidade inicial das alterações seminais.

Vale lembrar: a varicocelectomia melhora a fertilidade natural e pode, em casos selecionados, transformar uma indicação de fertilização in vitro (FIV) em inseminação intrauterina (IIU) ou até em gestação espontânea. Mesmo quando a cirurgia não resulta em gravidez natural, a melhora dos parâmetros seminais aumenta a chance de sucesso da reprodução assistida.

Riscos e complicações

A varicocelectomia microcirúrgica é uma cirurgia segura, com baixa taxa de complicações:

  • Hidrocele pós-operatória (acúmulo de líquido em torno do testículo): cerca de 1% nas técnicas microcirúrgicas; maior nas técnicas não microcirúrgicas
  • Recidiva da varicocele: 1–2% após microcirurgia, até 10% em outras técnicas
  • Lesão da artéria testicular: raríssima na técnica microcirúrgica, pois a artéria é identificada e preservada
  • Hematoma e infecção da ferida: incomum, similar a outras pequenas cirurgias

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Perguntas frequentes

Toda varicocele precisa ser operada?

Não. A maioria das varicoceles é assintomática e não compromete a fertilidade. A cirurgia é indicada quando há varicocele palpável, espermograma alterado e tentativa de gravidez sem sucesso. Varicoceles detectadas apenas por ultrassom (subclínicas) não têm indicação cirúrgica pelas diretrizes atuais.

Em quanto tempo o espermograma melhora após a cirurgia?

Os primeiros sinais de melhora aparecem por volta de 3 meses, com estabilização entre 6 e 12 meses. O ciclo completo de produção de espermatozoides leva cerca de 74 dias, por isso o reexame do espermograma só faz sentido a partir do terceiro mês pós-operatório.

A varicocele pode causar dor no testículo?

Sim, em uma minoria de casos. A dor típica é uma sensação de peso ou desconforto no escroto que piora ao final do dia ou após esforço físico e melhora ao deitar. Quando a dor é claramente atribuída à varicocele, persistente e não responde a medidas conservadoras, a cirurgia pode ser indicada mesmo sem alteração no espermograma.

A varicocele reduz a testosterona?

Em homens selecionados, sim. A varicocele pode comprometer a função das células de Leydig, responsáveis pela produção de testosterona. Estudos mostram que a varicocelectomia pode elevar os níveis de testosterona em homens com hipogonadismo associado à varicocele clínica. A indicação cirúrgica nesse cenário deve ser individualizada.

Posso fazer FIV sem operar a varicocele?

Pode, e em muitos casos é uma opção válida — especialmente quando a idade da parceira é um fator limitante de tempo. No entanto, mesmo quando a FIV é a escolha, operar a varicocele antes pode melhorar os parâmetros seminais, reduzir a fragmentação do DNA espermático e aumentar as chances de sucesso do ciclo. A decisão é compartilhada com o casal e com o especialista em reprodução assistida.

Referências

  1. Brannigan RE, Hermanson L, Kaczmarek J, et al. Updates to Male Infertility: AUA/ASRM Guideline (2024). J Urol. 2024;212(6):789-799.
  2. Minhas S, Bettocchi C, Boeri L, et al. European Association of Urology Guidelines on Male Sexual and Reproductive Health: 2024 Update on Male Infertility. Eur Urol. 2024.
  3. Agarwal A, Cannarella R, Saleh R, et al. Impact of Varicocele Repair on Semen Parameters in Infertile Men: A Systematic Review and Meta-Analysis. World J Mens Health. 2023;41(2):289-310.

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