O que é infertilidade masculina?
Define-se infertilidade como a incapacidade de um casal obter gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem uso de contracepção. Quando a investigação aponta para o homem como fator contribuinte — seja isolado ou em combinação com fatores femininos — fala-se em infertilidade masculina.
Estudos populacionais indicam que o fator masculino é responsável por cerca de 40 a 50% dos casos de infertilidade conjugal. Isso significa que avaliar o homem não é opcional — é parte essencial da investigação do casal.
Quais são as principais causas?
As causas de infertilidade masculina podem ser classificadas em três grandes grupos:
- Pré-testiculares — alterações hormonais que prejudicam o estímulo à produção de espermatozoides, como baixos níveis de FSH, LH ou testosterona.
- Testiculares — problemas na própria produção espermática, incluindo varicocele, criptorquidia (testículo que não desceu), trauma, infecções como orquite por caxumba e causas genéticas.
- Pós-testiculares — obstrução ou disfunção no transporte dos espermatozoides, como sequela de vasectomia, infecções genitais prévias ou ejaculação retrógrada.
A varicocele — dilatação das veias que drenam o testículo, semelhante a varizes — é a causa tratável mais comum, presente em até 40% dos homens inférteis avaliados em clínicas de andrologia.
Em aproximadamente 30% dos casos, nenhuma causa é identificada. Nesses casos, fala-se em infertilidade idiopática, e a abordagem pode incluir tratamentos empíricos ou reprodução assistida.
Hábitos de vida que afetam a fertilidade
Além das causas médicas, alguns fatores do cotidiano impactam diretamente a qualidade do sêmen:
- Tabagismo — reduz a concentração, motilidade e morfologia espermática
- Consumo excessivo de álcool — interfere na produção de testosterona
- Obesidade — altera o equilíbrio hormonal e eleva a temperatura escrotal
- Uso de anabolizantes — suprime a produção hormonal endógena de forma significativa
- Exposição a calor excessivo (saunas, banhos quentes prolongados) — os testículos funcionam melhor a temperaturas ligeiramente abaixo da corporal
- Estresse crônico e privação de sono — comprometem o eixo hormonal reprodutivo
A boa notícia é que muitos desses fatores são reversíveis. Mudanças no estilo de vida, quando associadas ao tratamento específico, melhoram significativamente os resultados.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação começa com uma consulta urológica detalhada, que inclui histórico médico completo, avaliação de doenças prévias, cirurgias, medicamentos em uso e hábitos de vida. O exame físico foca especialmente na avaliação dos testículos e epidídimos — volume, consistência e presença de varicocele.
O exame principal é o espermograma (análise seminal), que avalia concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides. Idealmente, devem ser realizadas duas coletas com intervalo de 2 a 3 semanas para maior confiabilidade.
Dependendo do resultado, exames complementares podem ser solicitados:
- Dosagens hormonais — FSH, LH, testosterona, prolactina
- Ultrassonografia testicular com Doppler — para avaliação de varicocele e anatomia
- Fragmentação de DNA espermático — avalia danos no material genético dos espermatozoides
- Cariótipo e testes genéticos — indicados em casos de azoospermia ou oligospermia grave
Quais são as opções de tratamento?
O tratamento depende diretamente da causa identificada:
- Varicocele — correção cirúrgica (varicocelectomia) ou por microcirurgia. É o tratamento com maior evidência de melhora nos parâmetros seminais.
- Alterações hormonais — reposição ou modulação hormonal conforme o desequilíbrio identificado.
- Infecções genitais — antibioticoterapia direcionada ao agente causador.
- Obstrução dos ductos — cirurgia reconstrutiva, quando tecnicamente possível.
- Causas idiopáticas ou irreversíveis — técnicas de reprodução assistida como inseminação intrauterina, fertilização in vitro (FIV) ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI).
É importante ressaltar que o tratamento da infertilidade masculina é uma decisão do casal. A avaliação simultânea da parceira é fundamental, pois o resultado depende de ambos.
Quando procurar o urologista?
A recomendação padrão é buscar avaliação após 12 meses de tentativas sem sucesso. Esse prazo cai para 6 meses quando a parceira tem mais de 35 anos, ou quando há fatores de risco conhecidos — como história de varicocele, criptorquidia tratada na infância, uso de anabolizantes ou infecções genitais prévias.
Não existe motivo para adiar. Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores as chances de tratamento bem-sucedido — especialmente nas causas corrigíveis, como a varicocele.
Perguntas frequentes
O espermograma alterado significa que não posso ter filhos?
Não necessariamente. Um espermograma alterado indica que algo deve ser investigado — mas não define impossibilidade. Muitos homens com parâmetros seminais comprometidos conseguem conceber naturalmente após o tratamento da causa, ou com auxílio de técnicas de reprodução assistida.
A varicocele sempre precisa ser operada?
Não. A cirurgia é indicada quando a varicocele é clinicamente evidente, o espermograma está alterado e o casal está tentando engravidar. Em homens sem queixa de fertilidade, o acompanhamento pode ser suficiente.
Anabolizante causa infertilidade?
Sim. O uso de anabolizantes suprime o eixo hormonal responsável pela produção de espermatozoides, podendo levar à azoospermia (ausência total de espermatozoides). A recuperação após a interrupção pode ser lenta e, em alguns casos, incompleta.
Quando investigar antes dos 12 meses de tentativa?
A investigação deve ser antecipada quando: a parceira tem mais de 35 anos, há histórico conhecido de varicocele, criptorquidia tratada na infância, uso de anabolizantes ou infecções genitais prévias. Não há contraindicação em buscar avaliação a qualquer momento.
Se o problema não tiver cura, ainda é possível ter filhos?
Em muitos casos, sim. Mesmo quando não é possível corrigir a causa, técnicas de reprodução assistida como ICSI (injeção de um único espermatozoide no óvulo) permitem a concepção em situações de azoospermia obstrutiva, usando espermatozoides obtidos diretamente do testículo.
Referências
- Schlegel PN et al. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline. J Urol. 2021;205(1):36-43.
- Jungwirth A et al. EAU Guidelines on Male Infertility. Eur Urol. 2024.
- Sociedade Brasileira de Urologia. Diretrizes de Infertilidade Masculina. SBU, 2023.
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