← Voltar para artigos
A ressonância magnética multiparamétrica da próstata — conhecida pela sigla RMmp — transformou a forma como investigamos doenças da próstata na última década. Antes reservada apenas para casos muito selecionados, hoje ela ocupa um papel central no rastreamento moderno, evitando biópsias desnecessárias e tornando as que são necessárias muito mais precisas.

Quando a ressonância da próstata é indicada?

A principal indicação é a investigação de um PSA alterado ou em ascensão, especialmente quando associado a um toque retal suspeito. As indicações foram se ampliando com o tempo:

  • PSA elevado ou com velocidade de subida preocupante
  • Toque retal com área endurecida ou assimétrica
  • Antes de uma biópsia — para guiar a coleta para as áreas mais suspeitas
  • Após uma biópsia negativa com PSA persistentemente alterado
  • Acompanhamento de pacientes em vigilância ativa
  • Estadiamento local em pacientes já diagnosticados com câncer de próstata

Como o exame foi incorporado ao rastreamento?

Durante décadas, o caminho padrão após um PSA alterado era direto para a biópsia — sem etapa intermediária de imagem. O problema: a biópsia convencional é realizada de forma sistemática, sem visualizar onde o tumor está, o que gera tanto falsos negativos quanto biópsias desnecessárias em homens sem câncer.

A ressonância multiparamétrica começou a ganhar espaço no início dos anos 2010, e em 2019 o estudo PRECISION — publicado no New England Journal of Medicine — demonstrou que realizar a ressonância antes da biópsia aumenta a detecção de tumores clinicamente significativos e reduz o diagnóstico de tumores irrelevantes. A partir daí, as principais diretrizes internacionais passaram a recomendar a RMmp como etapa obrigatória antes de qualquer biópsia em pacientes sem diagnóstico prévio.

Como é feito o exame?

O paciente é posicionado deitado dentro do equipamento de ressonância — um tubo largo, com ventilação e iluminação interna. O exame não utiliza radiação, ao contrário da tomografia. A duração é de aproximadamente 30 a 45 minutos, durante os quais o paciente precisa permanecer imóvel. O equipamento produz sons rítmicos e repetitivos — algo esperado e normal.

Sobre o contraste: a ressonância multiparamétrica inclui uma sequência com injeção de contraste intravenoso (gadolínio), que avalia como o sangue chega às diferentes áreas da próstata — tumores tendem a se comportar de forma distinta do tecido saudável nessa análise. O contraste é seguro para a grande maioria dos pacientes. Devem informar ao médico antes do exame aqueles com histórico de reação alérgica a contraste, insuficiência renal ou que estejam grávidas.

Preparo: é recomendado realizar um enema (lavagem intestinal) na véspera do exame, para reduzir artefatos causados pelo conteúdo intestinal. Alguns centros também solicitam abstência sexual por 3 dias antes, para melhorar a qualidade das imagens.

Quais informações o exame fornece?

A ressonância multiparamétrica avalia a próstata sob três perspectivas simultâneas — daí o nome “multiparamétrica”:

  • Morfologia — o tamanho, o formato e a anatomia interna da glândula, identificando áreas com alteração de sinal
  • Difusão — avalia a movimentação das moléculas de água dentro do tecido; áreas com células muito compactas, como tumores, restringem essa difusão de forma característica
  • Perfusão/contraste — analisa como o sangue chega e sai das diferentes regiões da próstata

Essa combinação permite identificar lesões suspeitas, estimar seu tamanho e localização exata dentro da glândula, e avaliar se há sinais de extensão para além da próstata.

O que é o PI-RADS?

O resultado da ressonância é classificado por um sistema padronizado chamado PI-RADS (Prostate Imaging Reporting and Data System), que vai de 1 a 5:

  • PI-RADS 1 e 2 — achado provavelmente benigno, baixa probabilidade de câncer clinicamente significativo
  • PI-RADS 3 — achado indeterminado, risco intermediário
  • PI-RADS 4 e 5 — achado suspeito, alta probabilidade de câncer clinicamente significativo

É fundamental deixar claro: o PI-RADS não é um diagnóstico. É uma estimativa de probabilidade. Um PI-RADS 4 não significa que o paciente tem câncer — significa que a lesão tem características que merecem investigação adicional. O resultado da ressonância é sempre interpretado em conjunto com o PSA, o toque retal, a história clínica e os fatores de risco individuais.

Ressonância normal — e agora?

Uma ressonância sem lesões suspeitas (PI-RADS 1 ou 2) em um paciente com PSA levemente alterado e sem outros fatores de risco pode, em muitos casos, evitar uma biópsia imediata — substituindo-a por acompanhamento clínico com PSA seriado. Essa é uma das maiores conquistas da RMmp: reduzir procedimentos invasivos desnecessários.

Quando a ressonância identifica uma área suspeita, a biópsia que se segue pode ser dirigida exatamente para aquela região — com muito mais precisão do que a biópsia convencional às cegas.

Perguntas frequentes

O que significa PI-RADS 3, 4 ou 5 no meu laudo?

PI-RADS é uma escala de 1 a 5 que classifica a probabilidade de câncer significativo na próstata. PI-RADS 3 representa probabilidade intermediária, PI-RADS 4 é suspeito e PI-RADS 5 é altamente suspeito. PI-RADS 4 e 5 geralmente indicam necessidade de biópsia para confirmação.

A ressonância da próstata substitui a biópsia?

Não substitui, mas pode evitar biópsias desnecessárias. Se a ressonância mostrar baixa probabilidade de câncer (PI-RADS 1 ou 2), a biópsia pode ser adiada com segurança. Quando identifica lesão suspeita, guia a biópsia com muito mais precisão do que a técnica tradicional às cegas.

Preciso me preparar para o exame?

Sim. É recomendável evitar ejaculação nas 48–72 horas anteriores. O exame dura entre 30 e 40 minutos e praticamente sempre inclui a administração de contraste venoso (gadolínio), que melhora significativamente a qualidade das imagens e a detecção de lesões.

A ressonância da próstata dói?

Não. O exame é não invasivo e indolor. O paciente fica deitado dentro do aparelho. O principal desconforto é para quem tem claustrofobia, mas os aparelhos modernos são mais abertos e a equipe pode orientar o paciente durante todo o exame.

Posso fazer a ressonância em qualquer clínica?

A qualidade do laudo depende muito da experiência do radiologista em próstata. É importante realizar o exame em centros com radiologistas especializados em imagem urológica, para garantir uma classificação PI-RADS confiável que oriente corretamente a decisão clínica.

Referências

  1. Kasivisvanathan V et al. MRI-Targeted or Standard Biopsy for Prostate-Cancer Diagnosis (PRECISION). N Engl J Med. 2018;378(19):1767–1777.
  2. European Association of Urology. Guidelines on Prostate Cancer. EAU, 2024.
  3. American Urological Association. Early Detection of Prostate Cancer Guideline. AUA, 2023.

Tem dúvidas sobre seu caso? O Dr. Marcos Kaddoum atende em Cachoeiro de Itapemirim e oferece avaliação especializada.

Agendar consulta