O que mudou nas diretrizes de 2026?
A Associação Europeia de Urologia (EAU) passou a basear o rastreamento no PSA e na avaliação de risco individual, sem papel para o toque retal nas recomendações de rastreamento. A Associação Americana de Urologia (AUA) seguiu na mesma direção, mas manteve o toque como opção: o médico pode usá-lo junto com o PSA para estimar o risco, uma recomendação condicional, com nível de evidência mais baixo (grau C).
A Sociedade Brasileira de Urologia mantém o exame clínico com toque retal como parte da avaliação. É uma divergência real entre sociedades médicas, e vale explicá-la com transparência: as diretrizes concordam que o PSA é o exame central do rastreamento; a discussão é sobre quanto o toque acrescenta em quem não tem sintomas.
Por que o toque perdeu espaço no rastreamento?
Três estudos recentes explicam a mudança:
- PROBASE (Alemanha, 2023) — em mais de 6.500 homens de 45 anos examinados apenas pelo toque, o exame encontrou cerca de quatro vezes menos tumores do que o PSA e gerou mais alarmes falsos. Entre os cânceres detectados pelo PSA, 86% tinham toque normal.
- Revisão de oito estudos (2024), com mais de 85 mil homens — o toque detectou bem menos tumores que o PSA, e somar o toque ao PSA não melhorou a detecção.
- Editorial na revista da SBU (2026) — o autor defende que o toque não é obsoleto, mas que deve ser usado no paciente certo, no momento certo: sintomas, estimativa do volume da próstata, estadiamento e casos em que PSA e ressonância não combinam.
O rastreamento com PSA funciona?
Sim. O maior estudo sobre o tema, o europeu ERSPC, acompanhou mais de 160 mil homens por 23 anos. Entre os convidados para fazer o PSA, a mortalidade por câncer de próstata foi 13% menor. Em números absolutos: para cada 456 homens convidados ao rastreamento, uma morte pela doença foi evitada, e esse benefício aumentou com o tempo de acompanhamento.
O mesmo estudo lembra o outro lado: o rastreamento também encontra tumores pequenos que talvez nunca causassem problemas. Por isso o caminho atual combina PSA, ressonância antes da biópsia e vigilância ativa para os tumores de baixo risco, reduzindo exames e tratamentos desnecessários.
Quando começar?
Aos 40 anos, vale a primeira conversa com o urologista. O objetivo dessa consulta é estratificar o seu risco: entender o histórico da família, a ascendência e a sua saúde geral, para definir se e quando começar o PSA e com que frequência repeti-lo. Quando indicado nessa avaliação, um PSA inicial ajuda a definir o seu risco e o ritmo dos próximos exames. Se houver casos de câncer de próstata, mama, ovário ou pâncreas na família — principalmente em idade jovem — pode ser indicada avaliação genética (BRCA2).
Para homens com pai ou irmão que tiveram câncer de próstata (especialmente antes dos 60 anos), com vários familiares afetados, ou para homens negros, o acompanhamento com PSA deve começar a partir dos 45 anos.
Com que frequência repetir o PSA?
Não precisa ser todo ano. A diretriz europeia ajusta o intervalo ao valor do primeiro PSA: quem tem um valor baixo para a idade pode repetir o exame com intervalos mais longos, de alguns anos; quem tem um valor mais alto deve repetir a cada dois anos. Um PSA alterado deve ser confirmado em nova dosagem antes de qualquer investigação adicional. O ritmo certo é definido na consulta, a partir do seu resultado e do seu histórico.
Medo do toque não é motivo para não fazer o PSA
Muitos homens deixam de procurar o urologista por causa do toque. Esse é o principal recado deste artigo: o PSA é um exame de sangue simples, e é ele que sustenta o rastreamento. Se o toque for útil no seu caso, o urologista vai explicar por quê. E, se o PSA vier alterado, o próximo passo hoje é a ressonância da próstata, que muitas vezes evita uma biópsia.
Perguntas frequentes
O toque retal não é mais necessário?
Para homens sem sintomas, as diretrizes europeia e americana de 2026 não o recomendam como exame de rotina; a americana mantém como opção, e a SBU segue incluindo o exame clínico na consulta. Ele continua importante em quem tem sintomas urinários, suspeita de prostatite ou câncer já diagnosticado.
Só o PSA basta?
O PSA é o exame central, mas o rastreamento é mais do que um número: inclui idade, histórico familiar, volume da próstata e, quando o PSA vem alterado, a ressonância. Por isso a interpretação deve ser feita pelo urologista.
Com quantos anos devo começar?
Aos 40 anos vale a primeira conversa com o urologista, para estratificar o seu risco e definir se e quando começar o PSA. Homens com pai ou irmão com câncer de próstata, com vários familiares afetados ou negros devem fazer o acompanhamento a partir dos 45.
Preciso fazer o PSA todo ano?
Na maioria dos casos, não. O intervalo é ajustado ao valor do primeiro exame e pode ser de dois anos ou mais.
Câncer na família de mulheres conta?
Sim. Casos de câncer de mama, ovário ou pâncreas, principalmente em idade jovem, podem indicar alteração genética (como no gene BRCA2), que aumenta o risco de câncer de próstata. Nesses casos, pode ser indicada avaliação genética.
Referências
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- Matsukawa A et al. Comparing the Performance of Digital Rectal Examination and Prostate-specific Antigen as a Screening Test for Prostate Cancer: A Systematic Review and Meta-analysis. Eur Urol Oncol. 2024;7(4):697–704. doi:10.1016/j.euo.2023.12.005
- Roobol MJ et al. European Study of Prostate Cancer Screening — 23-Year Follow-up. N Engl J Med. 2025;393(17):1669–1680. doi:10.1056/NEJMoa2503223
- Reis LO. Repositioning the Digital Rectal Examination in the Era of Risk-Adapted Prostate Cancer Diagnostics: Right Tool to the Right Patient at the Right Time. Int Braz J Urol. 2026;52(4):e20269907. doi:10.1590/S1677-5538.IBJU.2026.9907
- Cornford P et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer — 2026 Update. Part I: Screening, Diagnosis, and Local Treatment with Curative Intent. Eur Urol. 2026;90(3):254–269. doi:10.1016/j.eururo.2026.04.013
- Lin DW et al. Updates to Early Detection of Prostate Cancer: AUA/SUO Guideline (2026). J Urol. 2026;215(5):491–501. doi:10.1097/JU.0000000000004995
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